Cixi, uma concubina a frente de seu tempo.

Cixi, uma concubina a frente de seu tempo.

Quando você visita Beijing e suas principais atrações: Cidade Proibida, Palácio de Verão; ouve-se falar muito da Imperatriz Cixi, ou melhor, a Concubina que virou Imperatriz.

Resolvi então pesquisar um pouco mais sobre essa mulher e entender a sua importância na história da China.

Nas minhas pesquisas encontrei vários artigos, alguns focando suas extravagâncias e gastos desnecessários, como a construção de um barco em mármore e outros como o descrito no livro “A Imperatriz de Ferro”, de Jung Chang, que mostra uma mulher determinada a mudar o futuro da China. (Livro proibido aqui na China).

Barco de Mármore.

A Imperatriz Viúva Cixi foi uma poderosa e carismática mulher que, embora não oficialmente, governou a China da Dinastia Qing durante 47 anos, de 1861 até à sua morte em 1908.

Ela era uma das concubinas de status inferior do Imperador Xianfeng quando, em 1856, deu à luz aquele que viria a ser o único filho do imperador.

Cixi nasceu em 1835, era filha de uma família comum e que tinha tudo para ter uma vida sem grandes realizações até ser aceita para fazer parte das concubinas do imperador aos 16 anos de idade, o que era uma grande honra para uma mulher comum naquela sociedade chinesa.

Xianfeng, o então imperador, viu-se seduzido pela jovem ao ouvir seu gracioso canto e passou a requisitar sua presença cada vez mais na habitual escala de pernoites românticas e sexuais entre o soberano e suas concubinas, apesar de não ser Cixi sua principal concubina, distinção que cabia a Zhen, que era a legítima consorte imperial.

O imperador Xianfeng morreu num momento de conflitos, quando a China dividida sofria ataques da França e da Inglaterra durante a Segunda Guerra do Ópio. Seu filho (Tongzhi) nessa época estava com seis anos de idade.

Com a morte de Xianfeng o império passou a ser regido por um conselho de homens nobres, mas Cixi não aceitou passivamente esta condição e foi em busca de apoio para sua causa.

Ela se aliou a Zhen (a legítima esposa de Xianfeng) e a outros nobres dissidentes, constituindo um movimento perigoso pelo poder – sob o risco de serem condenados por conspiração e traição.

Cixi e Zhen não possuíam formalmente nenhum poder político, mas eram hábeis articuladoras e tramaram uma participação no conselho. Elas alegaram que o imperador era incapaz de assinar de próprio punho nem firmar os selos reais nos documentos dos atos do conselho conforme a tradição e que deveriam elas mesmas realizar tal procedimento em seu nome porque era, respectivamente, mãe biológica e mãe “oficial” do príncipe herdeiro e com esse artifício tiveram acesso a uma reunião de deliberação dos conselheiros levando a criança, mas isso causou fúria entre os regentes, que reagiram aos gritos com a presença das duas mulheres.

O menino ficou assustado com a situação e chegou a urinar nas roupas de tão amedrontado, buscando o acolhimento das mães. As viúvas reais aproveitaram o incidente a acusaram os regentes de ameaça e agressão ao pequeno herdeiro do império e isso bastou para realizar um ato oficial de destituição do conselho de regentes através da imposição do selo imperial que elas traziam na condição de representantes da criança. Depois disso as duas mulheres passaram a assumir o comando do Estado.

Cixi acabou tendo um papel muito mais destacado como liderança política, pois a imperatriz viúva Zhen não podia sequer ser vista pelos ministros porque a tradição proibia (ela presidia audiências resguardada atrás de um biombo), e tinha que ser representada por nobres de sua confiança na maioria das ocasiões, além de ser uma personalidade discreta que não tinha propósito de conduzir o império.

Cixi, que não sofria as mesmas restrições, possuía uma assertiva inteligência política e por ter um temperamento totalmente diferente, atuava com maior liberdade e muito mais habilidade com os assuntos do Estado e tramas da política. Ela exibia maior simpatia pela quebra de tradições e pela modernização sob a influência ocidental.

Seu governo a princípio tentou combater a corrupção endêmica no país, mas foi marcado pela ocorrência de grandes levantes populares, que devastaram províncias tanto do norte como do sul e foram sufocados com grande brutalidade.

Enquanto as divergências internas se desenrolavam, as ameaças externas e as pretensões territoriais europeias cresciam vertiginosamente, mas as tensões se agravaram durante a Guerra dos Boxers (1899-1900), quando rebeldes chineses resolveram reagir contra a presença ocidental por meio do enfrentamento físico, prática de atentados e sabotagem. Os revoltosos e uma sociedade secreta de praticantes de artes marciais, que lutavam para expulsar todos os estrangeiros do território chinês foram apoiados pela imperatriz, mas as forças ocidentais se uniram através da Aliança das Oito Nações (EUA, Rússia, Reino Unido, França, Itália, Alemanha, Império Austro-Húngaro e Japão) e derrotaram o movimento, impondo pesadas condições sobre a China, que teve de realizar indenizações e foi obrigada a conceder ainda mais abertura aos interesses estrangeiros.

Guerra dos Boxers.

Estima-se que cerca de 12.000.000 de pessoas foram mortas durante sua dinastia.

A imperatriz concubina enfrentou oposições dos tradicionalistas entre a nobreza, a burocracia estatal e entre o povo, mas sua administração ajudou a sanear as finanças, criou uma poderosa armada naval, pacificou as tensões políticas internas ao derrotar levantes, favoreceu a abertura nos contatos e negócios com Ocidente buscando garantir a autonomia nacional.

Em 1873 Tongzhi finalmente ascendeu ao trono, mas não demonstrou outros interesses além de ópera, sexo e diversões, apesar de ter sido obrigado a se submeter a um tradicional ritual de inanição que não o matou, mas o deixou frágil até que morresse em 1875 de varíola sem deixar sucessor, o que levou Cixi mais uma vez ao trono (sem escapar dos rumores de ter sido responsável pela morte do próprio filho).

Com a morte de Zhen, em 1883, sua posição era ainda mais indiscutível, mas para justificar sua nova condição de regente ela nomeou como herdeiro Guangxu, seu sobrinho que tinha então três anos de idade, e nesta segunda fase de governo ampliou o processo de transformação na China, introduzindo a luz elétrica e a mineração de carvão.

Apesar de modernização, foi uma fase atribulada com o agravamento das tensões internas entre os tradicionalistas e os modernizadores, levando Cixi a assumir uma condução despótica e autoritária sobre o governo, realizando perseguições e punições a oponentes.

As divergências envolveram também seu herdeiro Guangxu, já consagrado imperador e tendo liderado frustradas reformas que renderam fortes oposições e um princípio de guerra civil que levou Cixi de volta à regência do império.

Acusado de conspirar contra a sua imperatriz-tutora após sua fracassada experiência como monarca, Guangxu foi mantido  sob a condição de prisioneiro em seu próprio palácio, tendo sua vida poupada por Cixi para evitar uma crise dinástica. Mas os reformadores seguidores de Guangxu impuseram uma árdua campanha difamatória contra a imperatriz, rendendo acusações sobre sua conduta moral e sexual e também criando narrativas de perversidades praticadas por ordem de Cixi.

Em 1901 uma série de medidas foram decretadas contra antigos hábitos tradicionais, incluindo a prática do pé de lótus, a permissão de casamentos entre pessoas das etnias manchu e ham e até possibilitou a liberdade de imprensa – ato que desagradou até os reformistas mais entusiásticos. Cixi também decretou mais atos que modificaram a China em 1906, a exemplo da adoção de uma monarquia constitucional e do direito ao voto.

O seu governo durou décadas fez a difícil transição entre a era medieval e os tempos modernos, a modernidade foi a sua grande arma, com destaque para a construção de vias de comunicação como as linhas ferroviárias, na implementação da eletricidade ou na introdução de instrumentos como o telégrafo.

Enquanto o ópio destruía a China tornando o país num território amorfo, Cixi tentava elevar a sua pátria. Missionários estrangeiros “invadiam” as fronteiras do país, os motins destruíam símbolos como o Palácio de Verão, o Japão alongava os seus tentáculos. A vida dos mais de 400 mil milhões de chineses dependia cada vez mais da capacidade diplomática de Cixi.

A imperatriz morreu em 15 de novembro de 1908, um dia após a suspeita morte de Guangxu, que teria sido envenenado por ordem de Cixi.

Antes de sua morte, porém, Cixi nomeou seu Grão-Conselheiro Zaifeng como sendo o regente e seu sobrinho neto, Puyi como Imperador.

 

Assim, Puyi, aos dois anos de idade, subiu ao trono como o último imperador, mas já com um império devastado e próximo do fim.

Não há dúvidas que foi uma mulher que viveu a frente do seu tempo !

Para mim só de ter acabado com a cultura dos pés de Lótus já mostra seu valor.

Até a próxima curiosidade.

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2 comentários em “Cixi, uma concubina a frente de seu tempo.

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